Outubro

           “Sempre tive dificuldade em falar sobre Julian sem o romantizar. Em grande medida, era dele que eu mais gostava, e é certamente com ele que sou mais tentado a entrar em floreados e sublimações, a reinventar, no fundo. Julgo que isto se deve ao facto de o próprio Julian estar constantemente a reinventar as pessoas e as coisas à sua volta, a emprestar a sua delicadeza, sabedoria, coragem ou charme a ações fundamentalmente desprovidas de tais qualidades. Era uma das razões por que eu gostava tanto dele: por essa luz lisonjeira a que ele me via, pela pessoa que eu era quando estava com ele, pelo que ele me deixava ser.
          Claro que agora seria fácil passar ao extremo oposto. Podia dizer que o segredo do seu encanto seria colar-se a jovens ansiosos por se sentirem melhores do que as outras pessoas; que tinha o estranho dom de distorcer os sentimentos de inferioridade em superioridade e arrogância. Podia igualmente dizer que não fazia isto por altruísmo mas por motivos essencialmente egoístas, a fim de satisfazer um qualquer impulso egotista. E podia continuar nesta linha durante páginas a fio, e, tanto quanto julgo saber, com uma boa dose de acuidade. Mas isso continuaria a não explicar o caráter eminentemente mágico da sua personalidade, nem a razão pela qual – mesmo à luz dos acontecimentos subsequentes – persiste em mim o desejo de o continuar a ver tal como o conheci: como o velho sábio que me apareceu vindo de sítio nenhum, com a proposta assombrosa de realizar todos os meus sonhos neste mundo.
          Mas mesmo nos contos de fadas, estes gentis cavalheiros e as suas fascinantes ofertas nem sempre são aquilo que parecem. Isto já não devia ser uma realidade muito difícil de aceitar nesta altura, mas, por qualquer motivo, continua a sê-lo. Gostaria, mais do que qualquer outra coisa, de poder dizer que o rosto de Julian se desmanchou quando soube aquilo que nós tínhamos feito. Gostaria de poder dizer que enterrou a cabeça na secretária e que chorou, que chorou por Bunny, que chorou por nós, que chorou pelas involuções da vida e do destino: que chorou por si próprio, por ser tão cego, por se ter recusado sempre a ver o que devia.
          E a verdade é que foi grande a tentação de dizer estas coisas de qualquer maneira, apesar de não serem minimamente verdadeiras.”

Donna Tartt, in A História Secreta